J.J. Arreola
Grata apresentação e descoberta a este escritor do qual seguem dois trechos...Gravitando
J.j.arreola
Os abismos se atraem. Eu vivo à borda de tua alma. Inclinado sobre ti,
perscruto teus pensamentos, indago a origem dos teus atos. Vagos desejos se
contorcem no fundo, confusos e ondulantes em seu leito de répteis.
De que se nutre minha contemplação voraz? Vejo o abismo e tu jazes na
profundeza de ti mesma. Nenhuma revelação. Nada que se pareça ao súbito
despertar da consciência. Nada senão o olho que, implacável, devolve meu
olhar perscrutador.
Narciso repulsivo, contemplo minha alma no fundo de um poço. Por vezes, a
vertigem desvia-me os olhos de ti. Mas sempre volto a escrutar a furna.
Outros, felizes, detêm-se um momento diante de tua alma, e se vão.
Eu permaneço na margem, ensimesmado. Muitas criaturas se despencam do alto.
Seus despojos surgem insignificantes, dissolvidos na satisfação.
Atraído pelo abismo, vivo a certeza melancólica de que nunca irei cair.
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O Encontro
(j.j. arreola)
Dois pontos que se atraem não têm por que seguir forçosamente uma linha
reta. Sem dúvida, é o caminho mais curto. Há, no entanto, os que preferem o
infinito.
As pessoas caem umas nos braços das outras sem delinear a aventura. Quando
muito, avançam num ziguezague. Mas, uma vez no rumo certo, corrigem o desvio
e se juntam. Amor tão repentino representa um choque, e aqueles que assim se
defrontarem são devolvidos ao ponto de partida como por efeito de um
disparo. Projetados violentamente, sua trajetória de retorno os incrusta
novamente, canhão adentro, num cartucho sem pólvora.
Vez por outra, um par se afasta desta regra invariável. Seu propósito é
francamente linear, não carece de retidão prévia. Misteriosamente, escolhem
o labirinto. Não podem viver separados. Esta é a única certeza que os
possui, e terminam perdendo-a ao se procurarem. Quando um deles erra e marca
o encontro, o outro finge não perceber e passa sem cumprimentar.

2 Comments:
Como teste...
bacana teu blog, elisandro.
venho ve-lo as vezes...
Andas a visitar o doidivanas...
até.
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