25.5.06

Elisandro Dalcin: manto azul


Elisandro Dalcin: manto azul
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2.9.04

J.J. Arreola

Grata apresentação e descoberta a este escritor do qual seguem dois trechos...

Gravitando

J.j.arreola

Os abismos se atraem. Eu vivo à borda de tua alma. Inclinado sobre ti,
perscruto teus pensamentos, indago a origem dos teus atos. Vagos desejos se
contorcem no fundo, confusos e ondulantes em seu leito de répteis.
De que se nutre minha contemplação voraz? Vejo o abismo e tu jazes na
profundeza de ti mesma. Nenhuma revelação. Nada que se pareça ao súbito
despertar da consciência. Nada senão o olho que, implacável, devolve meu
olhar perscrutador.
Narciso repulsivo, contemplo minha alma no fundo de um poço. Por vezes, a
vertigem desvia-me os olhos de ti. Mas sempre volto a escrutar a furna.
Outros, felizes, detêm-se um momento diante de tua alma, e se vão.
Eu permaneço na margem, ensimesmado. Muitas criaturas se despencam do alto.
Seus despojos surgem insignificantes, dissolvidos na satisfação.
Atraído pelo abismo, vivo a certeza melancólica de que nunca irei cair.
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O Encontro
(j.j. arreola)

Dois pontos que se atraem não têm por que seguir forçosamente uma linha
reta. Sem dúvida, é o caminho mais curto. Há, no entanto, os que preferem o
infinito.
As pessoas caem umas nos braços das outras sem delinear a aventura. Quando
muito, avançam num ziguezague. Mas, uma vez no rumo certo, corrigem o desvio
e se juntam. Amor tão repentino representa um choque, e aqueles que assim se
defrontarem são devolvidos ao ponto de partida como por efeito de um
disparo. Projetados violentamente, sua trajetória de retorno os incrusta
novamente, canhão adentro, num cartucho sem pólvora.
Vez por outra, um par se afasta desta regra invariável. Seu propósito é
francamente linear, não carece de retidão prévia. Misteriosamente, escolhem
o labirinto. Não podem viver separados. Esta é a única certeza que os
possui, e terminam perdendo-a ao se procurarem. Quando um deles erra e marca
o encontro, o outro finge não perceber e passa sem cumprimentar.

Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noite
por: Marina Colasanti

Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.


Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.


Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.

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Zaimbo (fala): -Nem precisa falar nada...
Real (responde): -Tá feliz homem sombra?

26.8.04

o passado....o presente....o futuro?

Recebi este poema do amigo Oneide...



tempo, temporal

se acaso te encontro
me encontro mal
já faz muito tempo
tempo, temporal
meu caminho é outro
tão longe de ti
não te via a tempos
há pouco te vi
são raras lembranças
passado atual
se acaso te encontro
tempo, temporal
queria dizer-te
isso que senti
cada vez mais longe
cada um por si
palavras distantes
conversa banal
mas quando te encontro
tempo, temporal


deediedrich@bol.com.br

20.6.04

dias e noites

Os dias estão passando e vou desfilando meus pensamentos dispersos...
Lidos, inventados em movimentos antropofágicos vou passando os dias...
Quando noite jogo tudo em alto-mar e boio no profundo sonho junto a lua...

O poema que segue é do escritor Marcelino Vespeira:

HOJE

O dia não foi meu
e tantos outros que o não são
erro no calendário
ou voluntária distração

E os dias que foram meus
gestos de outros são
que se dão a quem os quer
nos dias que o não são

E da pressa de os perder
do cançaso de os contar
ganho vícios da noite
que me sabem perdurar